Em julho de 2007 meu pai foi diagnosticado com câncer de laringe. Era pequeno, estava no começo e ele se tratou num dos melhores hospitais da América Latina. Noventa por cento de chance de cura, foi o que os médicos disseram. Mas ele morreu mesmo assim.
Durante quase três anos eu vi o meu pai ser comido por dentro. Eu o vi envelhecer uns 20, ficar seriamente deprimido, vomitar depois de beber água, ser mutilado com uma laringectomia radical, perder todo o cabelo do corpo na quimio, reaprender a falar, se alimentar via uma sonda estomacal. Câncer de laringe. Alguns meses de trégua e depois de uma cirurgia considerada muito bem sucedida, lá estava ele de novo, no esôfago. Quimio pesada, mais uns meses de trégua e o maldito voltou. Mais quimio, radio, meu pai que sempre havia sido um homem forte e orgulhoso ia se tornando um farrapo humano, até que um dia ele explodiu e sangrou até morrer. Eu estava lá, segurando sua mão até ele respirar pela última vez, até o seu coração parar de bater. Mas o pior de tudo isso é saber que morrer foi o melhor que poderia ter lhe acontecido naquela altura, porque quando se trata de câncer terminal as coisas sempre podem piorar, porque deveria haver um limite do quanto um ser humano pode sofrer. Mas não há.
Ontem todos os meios de comunicação deram que o ex-presidente Lula tem a mesma doença que matou meu pai. Eu não sei se dá pra imaginar a dor que é pra quem já perdeu alguém que amava pra esse mau ler "câncer de laringe" em todos os jornais. Eu sempre me comovo com a notícias sobre câncer. Creio que todo mundo que já passou pelo sofrimento de perder alguem amado pra essa doença deve sentir algo parecido. Toda vez que José Alencar dava um "Olé!" na morte, era como se o meu pai estivesse vencendo junto. Por isso quando ele se foi eu senti como se nós tivéssemos perdido a guerra juntos.
Mas não era sobre isso que eu queria falar. O que realmente me perturbou a respeito da notícia da doença do Lula foram os fatos de: a)Muitas pessoas estarem comemorando e fazendo piada com a doença do ex-presidente b)A campanha para que ele se trate no SUS. Como bem pontuou um amigo, se Lula se tratasse pelo SUS, diriam que ele está tirando a vaga de quem realmente precisa, já que tem condições de pagar por um tratamento privado. O meu pai era funcionário público. Mas optou por um tratamento privado não apenas pela qualidade do serviço. Ele não queria ocupar a vaga de alguém que não tivesse condições de pagar. Meu pai sempre pensou nas outras pessoas e não deixou de ser assim nem na hora mais difícil de sua vida.
Eu gostaria de perguntar a essas mesmas pessoas, que quando adoecem certamente não se tratam pelo SUS, se elas tivessem câncer e tivessem condições de ter acesso ao melhor tratamento, se não fariam de tudo para ter uma chance. Foi o que o meu pai fez. Nos primeiros seis meses de tratamento do meu pai, nesse mesmo hospital onde o presidente fará a quimio, minha mãe trabalhou dobrado num segundo emprego para que eles tivessem dinheiro para pagar pela radioterapia, já que as economias deles da vida inteira não seriam o suficiente. E quando o dinheiro acabou os companheiros de trabalho do Tribunal de Contas do Amapá, onde meu pai era funcionário, se mobilizaram para conseguir levantar fundos para o tratamento. No fim, meu pai terminou a vida se tratando no Instituto do Câncer de São Paulo (ICESP), pelo SUS. Mas mesmo assim haviam muitas despesas e toda a ajuda financeira que os amigos dele conseguiram levantar foram indispensáveis para que ele morresse com dignidade.
Por tudo isso é que eu me sinto pessoalmente ofendida por essas declarações, que não só são hipócritas, uma vez que seus autores não utilizam nem utilizarão a saúde pública. É pelo desrespeito que não atinge apenas o líder político e seus familiares. Isso atinge a todos que já passaram pela dor de perder alguém amado para o câncer. Atinge à memória do meu pai e a mim.
Força, Lula! Que você vença essa doença desgraçada por todos nós.
Eu chorei muito! Que deus te abençoe e tenha piedade das almas que não passaram o que vc, minha prima passou. Portanto não sabem oq estão fazendo!!!
ResponderExcluirBy Renata Reis
Querida Pretinha,
ResponderExcluireu assisti à resportagem do Jornal Nacional sentada na beira da cama porque eu estava de pé e não pude permanecer assim, dada a semelhança dos casos: os mesmos sintomas, mesmos fatores de risco, a mesma doença, o mesmo sítio de localização, a mesma equipe médica, o mesmo Hospital, as mesmas "excelentes" chances de cura... E eu só consegui pensar: "tomara que ele tenha mais sorte".
Eu tenho certeza de que o escárnio não vem de pessoas que já passaram por situação parecida. E, do fundo do meu coração, não desejo que passem. Mas assim como você, eu também me sinto ofendida e, mais ainda, porque vejo muitos colegas de profissão que também não são usuários do SUS, não se dedicam igualmente nos seus empregos públicos como nos particulares, mas ainda sim se acham no direito de atacar as pessoas em circunstâncias desfavoráveis, pra não ser dramática ou grosseira.
Hoje mostrei teu texto pra mamãe. Daquele jeitão dela, não chora. Mas senti o nó na garganta dela e imagino que pra vocês duas seja mesmo mais difícil lidar com tudo isso porque vocês viveram as piores experiências da doença, incluindo a própria morte.
Mas se essa história toda trouxe uma coisa boa foi que eu redescobri o teu blog e tô adorando ler os textos!
Essa cicatrização tá demorando, vai ficar a marca pra gente sempre lembrar de onde a gente veio, mas eu tô contando que vai parar de doer um dia! :)
Beijos, te amo,
Pauline.