"- Existe um clube, o clube dos pais mortos. Você só está nele quando você está nele. E eu sinto muito que você tenha entrado para o clube".
Christina Young para George O'Malley, em Grey's Anatomy.
Quando a gente começa crescer há alguns ritos de passagem. Aos 15 anos você está na época dos bailes de debutante. Aos 17, na época das festas dos amigos que passam no vestibular. Aos 21, 22, a época das formaturas. Pouco tempo depois começa a fase dos casamentos e quase instantaneamente, de visitar recém-nascidos. E quando você menos espera voce é atropelado pela época mais cruel da sua vida: a idade dos pais mortos. E mesmo que você ainda seja jovem, mesmo que você não tenha se casado ou tido filhos: a idade dos pais mortos atropela qualquer rito de passagem. Ela simplesmente chega e não há nada a ser feito. E eu sinto muito se esse dia chegou pra você.
Por mais que a gente saiba que pai e mãe não são eternos, nós nunca pensamos que vamos perdê-los aos 30 anos. Antes que eles tenham netos e fiquem velhinhos. Mas algumas vezes acontece antes disso. Não é justo, mas acontece.
A primeira notícia de um pai morto veio quando eu tinha 26 anos. Um amigo perdeu o pai por conta de um ataque cardíaco fulminante. Depois uma amiga, que também perdeu a mãe de repente. Uma que perdeu o pai num assalto. E aí veio uma que perdeu o pai pro câncer. E outra. E eu. Então haja horas de divã pra se acostumar a existir num mundo onde uma das suas principais referências na vida não existe mais. E o que fazer com o amor que continua existindo mesmo depois que a pessoa se vai? Esse é um dos principais desafios de entrar para este clube. Não precisa de trote dos veteranos. Quem te prega essa peça é a vida, porque você precisa continuar vivendo apesar dessa falta de chão.
Então vem o enterro e de repente você vê os seus amigos, os amigos dos seus irmãos, todo mundo ali disposto a prestar um conforto. Alguns inclusive choram junto. Mas, apesar de ser imensamente grato a eles, alguma hora você pensa "vocês não fazem idéia". E do fundo do coração você deseja que eles não façam mesmo idéia tão cedo. Porque é muito difícil caminhar uma vez que você faz parte do clube.
Os dias, meses, semanas passam. O mais triste é que o clube não deixa de ganhar membros. Outro pai que se foi por causa do câncer ou um infarto fulminante. E tudo o que você tem a fazer é prestar solidariedade aos amigos, que muitas vezes nem são tão próximos assim, mas que se aproximam por causa da dor. Então você começa a chorar quando assiste a comerciais Vic Vaporub, porque apareceu um vovô ensinando um netinho a andar de bicicleta. Você ainda não teve filhos, mas não tem mais pai. Um pai que nunca será velho. Um pai que só fará parte da história de seus filhos como uma lenda. Sim, agora você possui experiência e pode ajudar a outros adentra nessa dolorosa jornada. Mas nunca, nunca fica mais fácil.
Eu morro um cadinho todo ano sem ele...
ResponderExcluirBelo texto.
ResponderExcluirEssa dor estranha que não passa, mesmo que esteja sorrindo, é a certeza que vai demorar muito a passar.